Escola Municipal Dr. Wilson Romano Calil

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Bisavô e a Dentadura, Sylvia Orthof


Eu ouvi esta história de uma amiga, que disse que isso aconteceu, de verdade, em Montes Claros, Minas Gerais. Para contar a história, é preciso imaginar uma velha fazenda antiga. Dentro da fazenda, uma vetusta (socorro, que palavrão!) mesa colonial, muito comprida, de jacarandá, naturalmente. Em volta da mesa, uma família mineira. Por cima da mesa, tudo que mineiro tem direito para um bom almoço: tutu, carne de porco, lingüiça, feijão-tropeiro, torresminho, couve cortada bem fina... e eu nem posso descrever mais, porque já estou com excesso de peso, só de pensar: hum, que delícia!

A família era enorme e comia reunida, em volta da toalha bordada: pai, mãe, avó, avô, filhos, netos, sobrinhos, afilhados, a comadre que ficou viúva, a solteirona que era irmã da avó da Mariquinha... e o bisavô Arquimedes. O bisavô Arquimedes usava dentadura. Naturalmente, cada integrante tinha à sua frente o seu saboroso prato de tutu, couve, torresmo, feijão-tropeiro, carninha de porco, lingüiça, etc. e tal. E todos mastigavam e repetiam porque a fartura, ali, em Montes Claros, naquele tempo, era um espanto, de tanta! E cada um, evidentemente, tinha o seu copo. Pois os copos e o bisavô Arquimedes, diariamente, sofriam a seguinte brincadeira: — Toninho, ocê vai beber desse copo aí, na sua frente? Olha que o bisavô deixou a dentadura dele de molho, bem no seu copo, Toninho, na noite passada! — Num foi no meu, não: foi no copo da Maroca! O bisavô deixou a dentadura dentro do copo da Maroquinha! — Ó gente, num brinca assim que eu fico cum nojo, uai! O velho bisavô Arquimedes ouvia, sorria, mostrando a dentadura. Quando chegava o doce de leite, o queijinho, a goiabada e uma tal de sobremesa que tem o nome de "mineiro-de-botas", que tem queijo derretido, banana, canela, cravo, sei lá mais que gostosuras, o pessoal comia, comia. E depois de comer tanto doce, a sede vinha forte, e a chateação começava, ou recomeçava, ou não terminava: ___Tia Santinha, não beba do copo da dentadura do bisavô, cuidado! Tenho certeza de que a dentadura ficou no seu copo, de molho, a noite inteira! O bisavô ouvia e ia mastigando, o olhinho malicioso, nem te ligo para a brincadeira, comendo a goiabadinha, o "mineiro-de-botas", o doce de leite, o queijinho... e mexendo a dentadura pra lá e pra cá, pois a gengiva era velha a dentadura já estava sem apoio. Mas o bisavô tinha senso de humor... e falava pouco. O pessoal cochichava que ele era mais surdo do que uma porta. Bestagem, porque se existe coisa que não é surda, é porta: mesmo fechada, deixa passar cada coisa... Um dia, de repente, o bisavô apareceu sem a dentadura. E como todos perguntaram para ele o que tinha havido, o velho Arquimedes sorriu, um sorriso banguela, dizendo:

— Ocês tavam perturbando demais, todos com nojo dela, resolvi não usar, uai! Aí, a família ficou sem jeito, jurando que não iria falar mais da dentadura, que tudo fora brincadeira, que todos adoravam o velho Arquimedes, que ele desculpasse. — Tá desculpado, num tem importância. Eu já tava me aborrecendo com a história, mas tão desculpados. Mas até que tô achando bom ficar banguela: vou comer tutu e sopa... e doce de leite mole, ora! A família insistiu, pediu perdão, mas o bisavô botou fim à conversa, dizendo: — Ocês num insistam. Resolvi e tá resolvido. O dia que eu deixar de resolver, boto a dentadura outra vez!

E passaram-se vários dias. Ninguém mais fazia a brincadeira do copo. De
vez em quando, o bisavô lembrava: — Tô sentindo falta... — Da dentadura, bisavô?    — Não, da traquinagem de ocês... ninguém tá com nojo de beber água do copo, né?     — Ora, o senhor não deve levar a mal, foi molecagem, a gente não faz mais, pode usar a dentadura, bisavô. Um dia, de repente, o bisavô voltou a usar a dentadura. Todos na mesa se cutucaram e começaram a rir, muito disfarçado, quando bebiam água, pensando... sem dizer, pois haviam prometido. Depois da sobremesa, boca pedindo água depois de tanto doce caseiro, o velho Arquimedes disse: — Ocês tão bebendo tanta água, sem nojo... — Bisavô, era brincadeira! — Eu também fiz uma brincadeira: durante todo esse tempo que fiquei banguela, minha dentadura ficou de molho, dentro do filtro.

 

22 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. alguem saba na onde eu encotro o resume dessa historia

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    1. olha ambem preciso do resumo e nao acho

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    2. Eu sei, apenas crie um seu preguiçoso...

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    3. Releia algumas dos nomes de personagens que aparecem no seu conto Mariquinha Mariquinha soninho tia santinho que tipo de relação entre as pessoas nossa região e seus nomes terminados com as formas inho ou inha

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  3. adorei essa historia e muito mais muito engraçada kkkk quase me matei de tanto rirrrrrrrrrr kkkkkkkkk

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  4. Eu tenho essa História no meu livro de Português, eu eu achei muito engraçada

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  5. Quem e o narrador desse texto alguém sabe ?

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  6. No meu livro tem esse texto o problema é que tem uma pergunta que eu não consigo responder essa pergunta é; No conto o bisavô e a dentadura como o narrador mostra ao leitor que o que ele vai contar de fato aconteceu?, se souberem por favor me fale

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    1. No início da história, quando ela fala que ouviu a hist´ria de uma amiga, que aconteceu em Minas Gerais.

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  7. MUITO BOM O BISAVO ESCONDEU A DENTADURA DENTRO DO FILTRO E NINGUEM SABIA ENTAO TODOS ECA ESTAVAM BEBENDO AGUA DO FILTRO.
    LEGAL<3

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    1. Sim, a ortografia mudou no final dos anos 80 se não me engano!

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  9. No conto o bisavô EA dentadura como o narrador mostra o leitor que o que ele vai contar de fato acontece

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  10. No conto o bisavô EA dentadura como o narrador mostra o leitor que o que ele vai contar de fato acontece

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